ARTIGO: O Brasil só fecha a conta, se arrumar um emprego que pague bem!

O professor do MBA em Gestão Industrial, Herbert Viana ressalta a importância do desenvolvimento e inovação na busca pelo aperfeiçoamento na produção interna.

Em tempos de crise as famílias são mais rígidas com seus gastos, controlando e questionando todo dinheiro direcionado as despesas da casa. Corta-se primeiramente os supérfluos, como o número de idas mensais aos restaurantes ou aqueles rodízios de carne que passam a ser substituídos por pizza.

Da mesma forma atua os governos, os gestores públicos vão à caça de gastos que podem ser suprimidos, e assim, elevam as condições de governabilidade, em um dos seus mais relevantes fundamentos: capacidade de pagar as contas.

Já imaginou os governantes atrasando os salários do funcionalismo público, o pagamento dos seus fornecedores, ou seja, perdendo a capacidade de pagar suas contas?

Isto acontece quando há um desequilíbrio entre as despesas e arrecadações, observando a entrada de caixa (dinheiro) nos cofres públicos, percebe-se que sua maior fonte de irrigação são os impostos, e estes dependem da atividade econômica, quando ela arrefece, o cofre dos governos emagrece.

Existe uma máxima na economia doméstica, “uma família não pode gastar mais do que os pais ganham”, esta lógica também se aplica à administração pública. O Brasil vem enfrentando este problema nos últimos anos, vem gastando mais do que pode.

Quando vemos no noticiário a chuva de casos de corrupção, drenando bilhões de recursos públicos, exclamamos: “está aí a solução! Acaba a corrupção que todos os problemas serão resolvidos”.

Realmente, se extirparmos a corrupção da nossa sociedade, em todas as suas formas de expressão, viveríamos muito melhor: iriamos respeitar filas, teríamos um atendimento adequado em órgãos públicos e privados, sem o conhecido favorecimento aos chamados “peixes”, o dinheiro arrecadado seria bem administrado, enfim, com certeza daríamos um grande salto em civilidade e qualidade de vida, podendo também abrir novas perspectivas de debate, como por exemplo, os fundamentos da economia brasileira no que tange a produção.

Vejam só, temos grandes desafios, um deles é o combate a corrupção, mas existem outros. Vamos imaginar dois irmãos chamados Brasil e EUA, estes irmãos nasceram no mesmo continente, mas têm histórias diferentes, um estudou mais, investiu em suas terras, em suas universidades e infraestrutura, o outro ficou gastando muito tempo fazendo “bicos”, e praticando alguns golpes em si mesmo, achando que o seu “jeitinho” era solução para tudo.

Pois bem, estes irmãos arrumaram empregos com diferentes salários, os EUA têm um emprego que paga bem, cerca de U$ 17,7 trilhões por ano (PIB norte-americano em 2016), ele vende produtos de alto valor, como suprimentos industriais, maquinas de produção, veículos automotores e aviões. Só em aviões (6,6% das exportações norte-americanas), os EUA arrecadam cerca de U$ 115 bilhões ao ano.

Já o Brasil tem um emprego que não paga tão bem quanto o do seu irmão de continente, o salário brasileiro é de U$ 2,2 trilhões (PIB estimado de 2016), apenas 13% do salário do grande irmão do Norte. Este salário o Brasil deve agradecer aos abnegados que fizeram prosperar aos negócios da Soja (18% da exportação brasileira), minério de ferro (6,5%), petróleo bruto (5,8%), açúcar (4,6%), entre outras commodities, que infelizmente não têm o valor agregado tão alto, quanto bens manufaturados como aqueles que os EUA vendem.

Quase ia esquecendo, vendemos aviões também, o que nos dá um orgulho merecido, no entanto, enquanto os EUA vendem U$ 115 bilhões de aeronaves ao ano, nós vendemos U$ 408 milhões (exportação de aviões em 2016 de acordo com a secretaria de comercio exterior).

Enfim, com esta comparação viso mostrar que o Brasil tem um emprego que paga mal, pois sua produção é baseada em matérias prima, ou seja, nos esforçamos muito para ganhar pouco quando comparado a quem vende Iphone, carros, turbinas, etc.

Caro leitor, você já imaginou quanto custa o quilo do Iphone 7?

Vamos fazer a conta, um Iphone 7 custa U$ 649,00, o seu peso é de 138 gramas, ou seja, o quilo do Iphone custa U$ 649,00 vezes 7,2, o que nos dá um valor de U$ 4.672,80.

O minério de ferro (mfe), nosso segundo produto mais exportado, tem o preço em torno de U$ 80,00 a tonelada, logo, o quilo de mfe custa U$ 0,08.

Esta brincadeira com o Iphone ilustra a diferença gritante em exportar produtos com valor agregado e commodities, o que faz os EUA ter um emprego que paga bem e o Brasil ter um emprego que paga mal.

O que importa esta história de emprego que paga bem e mal na lógica da crise atual e das crises futuras?

Bem, a meu ver, se não arrumarmos um emprego que paga bem nas próximas décadas, nosso povo continuará vivendo mal. Quem ganha pouco não consegue pagar suas contas, não consegue levar seus filhos para universidade, não consegue ter uma boa e merecida aposentadoria.

Hoje o governo propõe cortar benefícios dos aposentados para diminuir o déficit da previdência social, caso contrário não tem caixa para pagar esta conta. Vejo alguns especialistas utilizarem um comparativo com os EUA para explicar que gastamos muito com previdência, afirmando que os gastos previdenciários equivalem a 11% do PIB no Brasil e a 6% do PIB nos Estados Unidos, sendo que a proporção da população norte-americana acima dos 60 anos (16% da população total) é o dobro da brasileira (8% da população total).

Esquecem de dizer o valor do PIB, bem como os gastos absolutos, no Brasil a previdência consome cerca de U$ 250 bilhões, nos EUA o valor é de U$ 1,1 trilhão, mas os EUA podem ter este nível de gasto, pois ganham bem. Um norte-americano se aposenta em média recebendo 50% do seu salário da ativa, sendo que o salário médio de um norte-americano é de R$ 6.680,00, já no Brasil a maioria dos benefícios da previdência equivale a um salário mínimo, R$ 945,80, salvo as aposentadorias astronômicas de políticos e alguns setores do funcionalismo público, uma distorção que deve ser combatida.

Observando a longo prazo, nunca fecharemos a conta, enquanto tivermos um emprego que paga mal. Sempre apertaremos o pescoço dos mais humildes na busca de fechar o balanço entre arrecadação e despesas. O Brasil precisa arrecadar mais, e isto quer dizer se desenvolver mais, buscar uma pauta de inovação e aperfeiçoamento da sua produção. Continuar vendendo commodities é muito importante, até porque são elas que nos sustentam hoje, mas precisamos incrementar novos produtos no nosso portfólio, e assim, evoluir até conquistar um emprego que pague bem, sem isso estamos fadados a sermos uma nação de desempregados, beneficiários do bolsa-família e aposentados de um salário mínimo.


Por: Herbert Garcia Viana, professor da UFRN e do MBA em Gestão Industrial do IEL

Data de Publicação: 14/02/2017

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